domingo, 21 de outubro de 2018

Tamo voltando!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Brincando de quente ou frio

Sempre achei que eu fosse uma pessoa fria. Minha facilidade com análises e números me levou para uma carreira de exatas, fiz engenharia. Fui muito prático nas minhas escolhas. Mas eu nunca me perguntei sobre o que eu realmente queria. Sobre quem realmente eu era. Até acabei indo para os lados de marketing e vendas, menos técnicos. Ainda assim, meu dia-a-dia sempre se resumiu a planilhas e apresentações. E me limitei a isso...

Mas agora, depois de tantos anos, estou descobrindo a arte dentro de mim. Na verdade, redescobrindo. Desde criança sempre fui apaixonado por cantar, desenhar, pintar e escrever. Como foi que deixei tudo isso se perder? Medo, timidez... E, neste ano em que completo quarenta de idade, não consigo mais parar de pensar em cores, formas e melodias. Igual ocorria nos meus tempos de infância. Há mágica em tudo a minha volta outra vez. O mundo se tornou belo e encantado de novo. A criança que eu sou renasceu. E, junto com ela, a arte ressurgiu em fluxo tão poderoso e intenso... Um vulcão!

E uma corrente de sentimentos adormecidos brota novamente do meu espírito. Eu os coloco nos desenhos que vão para o papel. Estou começando a sentir bem lá no fundo as frases e notas musicais que fico cantarolando por aí. Minha alma vibra em sintonia com as cordas do violão. Eu tenho cores, muitas cores. Eu estava congelado, mas o gelo se derreteu. Estou livre! 

Há tantos anos eu não chorava... Nem de tristeza, nem de alegria. Eu implodia todas as minhas emoções internamente, sem que ninguém percebesse. Demorou, mas agora eu me emociono e choro, sim! Para muitos, imagino que isso seja tão simples, meio bobo até. Para mim, é uma explosão de energia. O despertar do espírito imortal que estava em estado letárgico. Estou vivo!

O caminho de retomada é longo. Nem tudo eu mostro para as pessoas, muita coisa ainda fica apenas comigo. Estou me soltando aos poucos. A própria arte me ajuda a ficar mais livre. Por isso, estou investindo bastante tempo em arte. Estou investindo tempo no coração. Nesta encarnação já estou mais amadurecido, é verdade. Mas nunca é tarde. Descobri que sou um espírito eternamente juvenil, não importa quanto tempo passe. Uma criança que canta, rabisca, brinca, ri e chora. Alguém que ama. Que está removendo suas camadas exteriores de gelo.

Eu não sou frio.

Sou quente!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Meia volta, volver


Ele estava muito bem naquela segunda-feira. Muito bem. Coisas interessantes aconteceram durante o fim de semana. E as excelentes interações e notícias prosseguiam, intermináveis, pelas redes sociais. Ele foi trabalhar cheio de gás. Estava bombando. Explodindo! Porém, quando chegou ao escritório, o diretor deu-lhe um feedback negativo sobre a reunião da semana passada. Assim, logo de cara, primeira coisa do dia. Na verdade, foi o vice-presidente, ou simplesmente VP, que havia reclamado da reunião e falado horrores. E isso era curioso, pois, a seu singelo ver, a reunião havia sido ótima. Some-se a isso o fato de que o próprio VP teve grande responsabilidade pela condução das discussões. Contudo, (ab)usou do seu poder para isentar-se e dar o feedback ao diretor, o qual não ousou argumentar. O VP foi frio, seco, intimidador. Por sua vez, o diretor repassou o feedback a ele, que acabara de chegar. Talvez por necessidade psicológica de se livrar rapidamente daquele peso, repassá-lo ao primeiro que aparecesse. O diretor, que também teve enorme parcela de responsabilidade pela reunião, tentou ser frio, seco, intimidador. Ele, por sua vez, que ainda estava cheio de brilho no olhar, argumentou com o diretor e colocou os pingos nos i’s. Estava, definitivamente, cansado de engolir quieto aquele tipo de ataque, para depois se deixar implodir aos poucos pelas próprias emoções, de dentro para fora. Ficou satisfeito ao manter-se firme, orgulhoso de si. Mas, apesar disso, a empolgação foi embora. A frequência vibratória, que estava tão elevada, reduziu-se àquela temperatura morna de toda segunda-feira padrão. Não havia mais alegria naquele dia. Pelo contrário, agora ele teria que se reenergizar para o restante da semana. Essa estrutura hierárquica militarizada de comando e controle – na qual prevalece o que é forte e não o que é justo – é o que faz o mundo corporativo, por muitas vezes, ser tão odiado. Mas tudo bem. O dia passou e chegou ao fim. Era hora de ir embora. Ele pegou o elevador, desceu. Bateu continência para a recepcionista ao deixar o prédio. Desengavetou, de seu arquivo mental, um projeto secreto que havia sido, temporariamente, colocado de lado. Codinome: deserção.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Influenciando líderes no fim de semana


A revisão de performance aconteceu na sexta-feira. Ele recebeu um feedback. Ou, como se diz de forma mais moderna, seu chefe lhe apontou uma oportunidade de desenvolvimento. Disse que ele precisava melhorar a capacidade de influência. Liderar os altos executivos, apesar de estar abaixo na hierarquia, por meio da persuasão. Fechando a revisão e já mudando de assunto, o chefe lhe disse, adicionalmente, que seria necessário trabalhar durante o fim de semana. Tinham que concluir aquele projeto. Para isso, era imprescindível que o diretor executivo da outra área também finalizasse a sua parte. Seu chefe lhe deu a ordem: - faça o que for necessário. Ele enviou, então, uma mensagem ao tal diretor, na própria sexta, perguntando sobre o status. No sábado, nada de resposta. No domingo de manhã, também nada. À tarde, ele resolveu telefonar: - desculpe-me por incomodá-lo no domingo, mas o senhor recebeu minha mensagem? O diretor respondeu, aborrecido: - que mensagem? Ele explicou ao diretor do que se tratava. Acrescentando, dissertou sobre a visão estratégica do projeto. Quantificou a importância que aqueles resultados teriam para a empresa. Relembrou os prazos, os quais haviam sido estabelecidos há semanas atrás, de comum acordo. Enfatizou atenções e expectativas da vice-presidência - e do próprio presidente - em torno daquele trabalho, um dos pilares do plano de crescimento. Argumentou o diretor: - eu lerei as minhas mensagens amanhã. Preocupado, ele insistiu: - é de vital importância que o senhor responda ainda hoje, pois, de outra forma, não concluiremos o projeto em tempo. Mais aborrecido que antes, e agora com franqueza, o diretor executivo disse taxativamente: - nunca mais me ligue no fim de semana. O diretor desligou. E ele se sentiu incomodado. No fundo, aquela ligação havia sido feita contra seus princípios. Ele também não ficaria feliz se recebesse uma chamada de trabalho no domingo. Seguiria tentando melhorar seu poder de influência. Mas apenas nos dias úteis.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Trabalho, arte e humor na busca de mim mesmo

Inicialmente, quando criei O Diário da Gravata, não me apresentei como autor da página. Lancei o blog apenas anonimamente. Na minha busca por identidade, paradoxalmente, acabei suprimindo minha identificação. Senti-me acuado. Eu tinha (e ainda tenho) diversos medos.

Medo do que as pessoas iriam pensar daquela iniciativa.

Medo de retaliações no meu emprego, por se tratar de uma crítica ao mundo corporativo, ao qual pertenço. Talvez minha imagem de bom funcionário se quebrasse.

Medo de como minha família iria reagir ao me ver exposto daquela maneira, com possíveis riscos a minha carreira. Talvez minha imagem de pai responsável se quebrasse.

Medo de que meus amigos vissem que eu estava "fracassando", entre aspas mesmo, no sentido de não suportar as pressões que o mercado impõe. Talvez minha imagem de "vencedor" se quebrasse.

Medo de parecer infantil com meus desenhos, os quais me remetem aos tempos de criança, período no qual surgiu o interesse em desenhar. Talvez minha imagem de homem maduro se quebrasse.

Medo de confessar minhas fragilidades, pois lancei a página em um momento de profunda depressão, com o objetivo de colocar para fora, através de desenhos e textos, as situações que me causavam dor psicológica no trabalho. Talvez minha imagem de pessoa forte se quebrasse.

Porém, como vencer o medo de ser eu mesmo sem me associar publica e explicitamente as minhas criações? Por quanto tempo mais seria possível manter a suposta boa imagem se, dentro de mim, eu estava em total ebulição? E, afinal de contas, por que alguém tem que manter uma imagem?

Então lancei O Diário da Gravata publicamente, declarando-me como o autor, para todo mundo ver.

Eu não quero mais me preocupar com o que os outros pensam.

Eu não quero mais me preocupar com retaliações no meu emprego. Mesmo porque eu não tenho reclamações dele, meus conflitos são todos internos. A minha crítica ao mundo corporativo é genérica, não específica a nenhuma pessoa ou empresa. Faz parte de um processo inconsciente de espelhos, de projeção. Eu aprendo sobre mim ao fazer caricaturas do sistema. É possível que eu falhe ao longo do caminho, mas quero sempre fazer uma crítica leve, descontraída, que nunca ofenda nem magoe ninguém. No máximo, que provoque reflexões.

Eu não quero mais me preocupar em parecer responsável. Fazendo assim, eu estava sendo irresponsável comigo mesmo, com meus próprios sentimentos.

Não quero mais me preocupar em parecer maduro. Pelo contrário, estou estimulando minha criança interior, buscando as mesmas gargalhadas dos velhos tempos de infância. Por acaso, isso significa ser menos amadurecido?

Não quero mais me preocupar em parecer forte. E, por me aceitar vulnerável, estou me sentindo mais confiante, justamente por ter colocado minhas fragilidades em evidência de forma transparente. Não pretendo mais investir energia em manter disfarces e máscaras.

Não quero mais me preocupar em ser "vencedor". Só quero vencer a mim mesmo.

E, depois de mais de um ano, a verdade é que nenhum dos meus medos se concretizou. Embora eu estivesse esperando pelas consequências, para que me ajudassem a dilacerar meu próprio ego, nada aconteceu. Não fui retaliado no trabalho, ninguém me chamou de fracassado, irresponsável, infantil, fraco. O medo é assim. Em geral, os receios existem apenas na mente.

Desta forma, O Diário da Gravata representa muito mais que um hobby para mim. Tem sido uma das minhas ferramentas de aprendizado de coragem e autenticidade. Sou muito grato a esta página por aliviar minhas angústias quando necessário. Meu estresse caiu, meu rendimento melhorou. O trabalho me impulsiona ao autoconhecimento, enquanto a arte e o humor têm sido minha terapia.

Paralelamente, tenho me esforçado para também ser autêntico nas relações do dia-a-dia, no trabalho e na vida, ao olhar diretamente nos olhos das pessoas. Essa é a parte mais importante e a mais difícil, a mais árdua. Diferente de desenhar ou escrever, ela acontece em tempo real. Requer foco no momento presente, consciência plena da situação e de si, tudo ao mesmo tempo.

Estou aprendendo a me expressar em apresentações, reuniões e conflitos, assumindo posições, sem me omitir nem me exaltar em função das emoções. Estou aprendendo a não julgar, a tolerar as diferenças, a ignorar ofensas, a ouvir críticas e opiniões alheias sem ficar bravo, entendendo que o outro também percorre sua jornada de autoconhecimento e evolução. Estou aprendendo a dizer não quando não concordo ou quando não estou a fim de alguma coisa (finalmente!). Aprendendo a me dar um tempo, a ir no meu ritmo, a ser menos exigente comigo mesmo, convivendo em paz com minhas sombras e imperfeições. Prossigo lutando para me melhorar espiritualmente, contudo, sem me agredir, permitindo-me existir de forma aberta e verdadeira.

De passo em passo, vou ganhando plenitude.

Como já andei escrevendo por aí: quando estamos bem, tudo fica bem.

Brilhe a vossa luz.
Paz a todos.

sábado, 3 de setembro de 2016

Pobres de espírito

Foi uma reunião tensa, com acusações e ameaças. Havia um clima pesado no ar, de medo e apreensão. Tapetes foram puxados. Cortes foram decididos de imediato. Inimizade generalizada. Falsidade. Mas, de repente, em meio a todos aqueles conflitos, perceberam que a margem aumentaria em dez milhões. Alguém disse: - money, money, money. E todos riram. O clima mudou, ficaram contentes. Menos ele. Dentre tão ricas cifras, por dentro, sentia que ele e todos os demais eram muito pobres.

Conversa de negócios

Toda semana ele fazia um call de trinta minutos com o diretor executivo. Naquele dia, começaram falando sobre as Olimpíadas que estavam ocorrendo no Rio de Janeiro. Ele era americano, falaram sobre as medalhas dos Estados Unidos e do Brasil, sobre os principais destaques da natação, atletismo, ginástica e futebol. Comentaram sobre os tempos de juventude, dos esportes que praticavam quando moços. Lembraram-se de muitas coisas interessantes, estavam descontraídos, riram bastante. A conversa estava ótima. Foi quando começaram a falar dos negócios. E o clima mudou. O diretor pegou pesado, cobrou fortemente os resultados. Falou duro, firme. Não adiantou ele tentar argumentar. Assim, aquele papo, que estava tão bom, terminou tenso. Triste. As risadas se foram. A camaradagem acabou. Sobraram apenas preocupações e angústias. As pessoas nunca deveriam conversar sobre negócios...

domingo, 7 de agosto de 2016

Quem tinha maior razão?

Ele estava participando de uma reunião pela internet, quando sua filha chegou da escola. Ela veio até o quarto lhe dar um beijo de olá, como fazia todos os dias. Mas desta vez ficou curiosa: – papai, o que você está ouvindo? Ele respondeu: - é uma reunião da empresa, tem uma pessoa apresentando esta tela e falando para outras catorze pessoas que estão online. Ele colocou os fones na cabeça dela para ela escutar um pouco. Ela se preocupou: eles me ouvem quando eu falo aqui? Ele a tranquilizou: - não, você está em mudo, eles não podem te ouvir. Ela ficou aproximadamente dois minutos com os fones de ouvido. Então os devolveu ao pai, dizendo: - pegue de volta, é só um monte de blá blá blá. Se tivessem lhe perguntado, ele teria dito que era uma reunião de planejamento. Mas ficou pensativo. No fundo, ele sabia quem tinha maior razão.

sábado, 4 de junho de 2016

Viagem de trabalho

Paródia: Viagem de Trabalho
Somente não queria viajar


Nossas famílias estão longe daqui
O avião vai pousar, não tem como fugir
Se lembra quando era só brincadeira?
Fingir que trabalha a tarde inteira...

Mas agora a linguagem que temos na reunião
Parece que era forte, mas não era então
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
Tenho medo e eu sei porquê: estamos trabalhando

Quem é o executivo? Quem é você? (4x)

Nos escondemos tanto, tanto, sem saber
Por que... falar?

Nossas famílias estão longe daqui
O presidente eu vi decidir
Não quis falar o que eu senti
Não contradizer ninguém ali

Quem vai fazer o que você pediu?
Quem vai fazer o que você mandou?
Quem vai fazer agora o que eu não fiz?
Como explicar pra você que eu não quis?

Sou empregado
Lambendo botas

Somente não queria viajar (4x)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

quinta-feira, 19 de maio de 2016

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Sofrimento

O que você faz quando os resultados não foram bons e o chefe convoca uma reunião para conferir?

terça-feira, 3 de maio de 2016

Seguindo a bolinha com os olhos


Ficando loucão seguindo a bolinha com os olhos...
O mundo corporativo promove a sanidade mental...
Tosco... Brisa total...

terça-feira, 26 de abril de 2016

When two worlds collide

A empresa em que ele trabalha adquiriu outra empresa. Outro monstro do mercado corporativo, uma grande multinacional. Um complexo plano de merge está em desenvolvimento e, em breve, será colocado em execução. Todos os aspectos da nova empresa, resultante da fusão, estão sendo considerados: marca, cultura organizacional, lideranças, estrutura, processos, ferramentas, e de assim por diante. Foi realizado um webconference com todos os funcionários de ambas as corporações para apresentar o planejamento do merge e sanar eventuais dúvidas. E, como sempre acontece, uma boa dose de mensagens motivacionais foram comunicadas. - Esta será a empresa líder do setor por pelo menos três décadas! - Uma infinidade de oportunidades surge a nossa frente! - Sejam ambiciosos, ousados, chegou a época de ouro para os melhores, para aqueles que fazem a diferença! - Serão tempos de enorme trabalho, mas também de glória! - Estamos fazendo história! - Alguma pergunta? Ele tinha uma pergunta: - haverá um plano de demissão voluntária? Quero me inscrever... Mas guardou a pergunta para si próprio em pensamento. No momento certo ele saberia.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O abraço do mendigo

Ele estava péssimo. Viajou a trabalho. Outro país. Já se sentia só quando tomou o avião na ida. E, para ele, a reunião definitivamente não foi boa. Sentiu nas expressões dos executivos que as coisas não aconteceram como deveriam. A responsabilidade era sua, ele liderou a discussão. Voltou ao hotel cabisbaixo, não havia mais o que fazer. No bolso sobraram apenas alguns dólares, pois iria regressar ao Brasil naquela noite. Saiu às ruas para caminhar. Tantos pensamentos. Tantos sentimentos negativos. Somados a tudo que já vinha sentindo desde algum tempo, a autoestima foi abaixo do nível do solo. Pensou em Deus, Jesus, pediu ao seu anjo que estivesse por perto naquele momento solitário em terras estrangeiras. Psiu! Virou-se e havia um mendigo magro e totalmente sujo que lhe pediu dinheiro. Ele entregou o que estava no bolso, era tudo o que tinha. O mendigo ficou tão feliz que engatou animada conversa. Ele gostou e deu corda. O mendigo falou sobre uma cidade próxima dali. Ele respondeu que não a conhecia, que era brasileiro. O mendigo disse que aquela era sua cidade natal e que um dia o levaria até lá para passear. Ele sorriu, achando graça. Foi então que o mendigo o fitou bem no fundo dos olhos. Ele ficou paralisado, os arredores se apagaram como em sonho. Naquele instante só existiam os dois. Mesmo sem vários dentes, o sorriso daquele andarilho era belíssimo. O mendigo se aproximou ainda mais. E então se abraçaram como dois grandes amigos. Longamente. Fortemente. Era o calor humano de que ambos tanto necessitavam naquele momento. Ele compreendeu que as coisas que parecem importantes, na maioria das vezes, não são as que mais importam. E voltou ao Brasil muito feliz.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Relatividade

O vice-presidente, ou simplesmente VP, havia pedido a ele para que se encarregasse do projeto. Depois de passado algum tempo, foi marcada uma reunião para checar o progresso. A secretária agendou de um dia para o outro, sem dó. Mas ele tinha um conflito no horário proposto, outra reunião executiva já estava marcada há mais de um mês. Ele enviou um email para a secretária do VP, copiando o próprio, checando se era possível que alterassem o agendamento. Como ninguém respondeu, no dia seguinte enviou um outro email: - vocês receberam esta minha mensagem? Continuou sem resposta. Pediu então para um funcionário da sua equipe participar daquela reunião com o VP no lugar dele. Mas a reunião não aconteceu. Conta o funcionário que o VP ficou contrariado: - sem ele não há reunião! A reunião foi finalmente remarcada. Exatamente para o dia e horário em que ele teria uma entrevista no consulado americano para renovação do visto. Como da outra vez, enviou um email perguntando se poderiam remanejar. Novamente sem resposta. Lembrou-se da famosa teoria proposta por Einstein, a qual estabeleceu que o tempo é relativo. Ele sentia isso na prática. O tempo de alguns é mais importante que o dos outros.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Perfil Corporativo

Paródia: Perfil Corporativo
Qualquer semelhança é mera coincidência?


A gente não sabemos fazer slide decente
A gente não sabemos fazer planilha coerente
A gente não sabemos trazer pra valor presente
Tem cliente gritando que nóis é incompetente

Perfil
A gente temos perfil

A gente vende e não consegue entregar
A gente entrega e não consegue instalar
A gente instala e não consegue ligar
A gente dá manutenção e não consegue cobrar

Perfil
A gente temos perfil

A gente põe terno e começa a suar
A gente tem carro e não consegue chegar
A gente tem fome e não consegue almoçar
A gente apresenta sem ter nada para falar

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Só os paranoicos sobrevivem

Ele e seu colega trabalharam juntos na apresentação para a vice-presidência. O arquivo já estava noventa por cento pronto, portanto ele estava tranquilo. Seu colega, porém, tinha receios. E perguntou: - você tem certeza de que a apresentação ficará pronta em tempo? Ele respondeu calmamente: - claro, tudo sob controle. Seu colega insistiu: - você sabe o grau de exposição executiva que esta apresentação nos trará, nada pode dar errado. Ele repetiu: - sim, está tudo sob controle. Contudo, o colega ainda não estava satisfeito: - eu gostaria de ver o arquivo final na próxima hora, por favor me envie. Ele então retrucou: - os poucos dados que estão faltando não ficarão prontos na próxima hora, você terá que aguardar. O colega falou alto: - a apresentação é amanhã, você já deveria ter tudo pronto! Ele também, agora irritado, elevou a voz: - está tudo pronto, caramba, só faltam poucos dados. Foi quando seu colega perguntou: - você está nervoso? Ele explicou: - eu não estava, mas você acabou me deixando nervoso sim. O colega, surpreendentemente, disse: - eu não estou nervoso e você deveria se acalmar, senão você me deixa nervoso. Ele não entendia mais nada. Então o colega arrematou a conversa: - eu sou paranoico, você também deveria ser, porque no mundo corporativo só os paranoicos sobrevivem. Ele ficou pensando por um instante. Paranoia é uma disfunção psíquica. E sobreviver, em seu entendimento, era bem menos do que viver. Deixou para lá, não respondeu mais nada. Optou por continuar vivendo. Tranquilamente.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O Despertar do Engenheiro

Música: O Despertar do Engenheiro
Uma paródia sobre carreira



parece que a firma
vai cortar despesas
lembra da faculdade
muitos sonhos nascem
no cabaço que tem ambição
faz estágio, vira efetivo

engenheiro comemora
compra terno e sapatos
mas com o tempo o seu sonho
vai morrendo, vai morrendo...

essa carreira é complicada
a energia vai sumindo
tá ficando desanimado
a cada dia mais serviço

o feedback vem, o aumento não
mas o processo tem defeito

quisesse que na sua pós
não tivesse tomado pau
hoje seria diferente
seu salário aumentaria
teria uma sala
mas isso é besteira...

não aguento, em todo canto
tem tormento, mentira e falsidade
eu não aguento, o meu chefe me aborrece
eu não aguento, o plano agora é diferente
vida simples, ter um sítio
plantar uma horta, andar no mato
nunca mais quero sentir
depressão!

pelo amor...

made-in-China é crueldade
promoção é mais problema
ter propriedade é ter miragem
o sucesso tem um preço
mas o que o sucesso
significa?

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Super-herói

Ele estava se sentindo o máximo. A barba estava comprida e ele raspou apenas o bigode, com todo o cuidado. Fez isso para ficar parecido com o Wolverine, interpretado pelo ator Hugh Jackman nos filmes da série X-Men. Sua forma física até que enganava um pouco, devido à assiduidade na academia. Já pensou? As pessoas olhando para ele e pensando: - lá vai o Wolverine. Que show! Mas cabelos brancos o Wolverine não tinha. Ao passar na farmácia, procurou aquele xampu tonalizante famoso que atua nos cabelos gradualmente. Leu na caixinha que apenas os fios brancos eram escurecidos, dando um toque de naturalidade. Levou para casa, foi ao banheiro e fez a aplicação. Foi uma zona, pintou os cabelos, a testa, as orelhas, as costas, a parede, o chão e manchou também a toalha. Ao sair do banho, viu no espelho que seu cabelo estava preto como piche, quase azul. No dia seguinte, ao se levantar para trabalhar, raspou a barba toda. Não teve coragem de ir na reunião com o VP com cara de Wolverine. Ao chegar na empresa, uma colega logo gritou: - você pintou os cabelos! As mulheres são observadoras e algumas são também francas. - Pois é, você viu? O que achou? Ela emendou sem dó: - grisalho era bom, do jeito que está parece uma peruquinha. Daquele dia em diante, ficou conhecido no trabalho como Peruquinha.

Trocando os cachorros