segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Videoconferência

Na noite anterior, ele comprou um ventilador de liquidação. O calor de São Paulo nos últimos tempos tem sido quase que insuportável, clima de deserto. Trabalhar em casa tem suas vantagens. Ele não tinha ar condicionado, às vezes chegava a invejar o do escritório. Por outro lado, podia trabalhar de bermuda e sem camisa. E o ventilador, apesar de não ser nenhum espetáculo, quebrava o galho. Certo dia, a diretoria resolver fazer uma videoconferência. Ele poderia entrar a partir de casa mesmo. Bastava baixar o plug-in pela internet e usar a câmera do próprio notebook. Colocou uma camisa e se ajeitou na cadeira, que na verdade era um pufe. Como havia se mudado há pouco tempo, o quarto que serviria de escritório não estava pronto. Já fazia três meses que a porta estava para chegar, mas nunca chegava. Também não tinha os móveis ainda. Por isso, todos os dias ele ligava o computador no quarto de dormir mesmo, na beira da cama de casal. Sentava-se no pufe que colocava logo em frente. Era uma bancada improvisada. Ao começar a videoconferência, alguém perguntou de forma engraçadinha se ele ainda estava de pijamas. Seria por causa da cor cinza da camisa? Parecia tão apropriada. A reunião seguiu e chegou sua vez de falar, tirou o microfone do mudo e mandou ver. Falou olhando para a câmera, de forma imponente. No mesmo instante, sua filha pequena deu um berro no apartamento, vai saber qual o motivo. O cachorro começou a latir, o que atiçou os cachorros de toda a vizinhança. Foi interrompido: – não estamos conseguindo te ouvir. Ele pediu perdão e começou a explicar sobre os cachorros, jogou a culpa nos vizinhos. – Na verdade estamos escutando um ruído constante de fundo, como se alguém estivesse soprando no microfone. Era o ventilador.

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