sábado, 23 de janeiro de 2016

O abraço do mendigo

Ele estava péssimo. Viajou a trabalho. Outro país. Já se sentia só quando tomou o avião na ida. E, para ele, a reunião definitivamente não foi boa. Sentiu nas expressões dos executivos que as coisas não aconteceram como deveriam. A responsabilidade era sua, ele liderou a discussão. Voltou ao hotel cabisbaixo, não havia mais o que fazer. No bolso sobraram apenas alguns dólares, pois iria regressar ao Brasil naquela noite. Saiu às ruas para caminhar. Tantos pensamentos. Tantos sentimentos negativos. Somados a tudo que já vinha sentindo desde algum tempo, a autoestima foi abaixo do nível do solo. Pensou em Deus, Jesus, pediu ao seu anjo que estivesse por perto naquele momento solitário em terras estrangeiras. Psiu! Virou-se e havia um mendigo magro e totalmente sujo que lhe pediu dinheiro. Ele entregou o que estava no bolso, era tudo o que tinha. O mendigo ficou tão feliz que engatou animada conversa. Ele gostou e deu corda. O mendigo falou sobre uma cidade próxima dali. Ele respondeu que não a conhecia, que era brasileiro. O mendigo disse que aquela era sua cidade natal e que um dia o levaria até lá para passear. Ele sorriu, achando graça. Foi então que o mendigo o fitou bem no fundo dos olhos. Ele ficou paralisado, os arredores se apagaram como em sonho. Naquele instante só existiam os dois. Mesmo sem vários dentes, o sorriso daquele andarilho era belíssimo. O mendigo se aproximou ainda mais. E então se abraçaram como dois grandes amigos. Longamente. Fortemente. Era o calor humano de que ambos tanto necessitavam naquele momento. Ele compreendeu que as coisas que parecem importantes, na maioria das vezes, não são as que mais importam. E voltou ao Brasil muito feliz.

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