quarta-feira, 8 de março de 2017

Brincando de quente ou frio

Sempre achei que eu fosse uma pessoa fria. Minha facilidade com análises e números me levou para uma carreira de exatas, fiz engenharia. Fui muito prático nas minhas escolhas. Mas eu nunca me perguntei sobre o que eu realmente queria. Sobre quem realmente eu era. Até acabei indo para os lados de marketing e vendas, menos técnicos. Ainda assim, meu dia-a-dia sempre se resumiu a planilhas e apresentações. E me limitei a isso...

Mas agora, depois de tantos anos, estou descobrindo a arte dentro de mim. Na verdade, redescobrindo. Desde criança sempre fui apaixonado por cantar, desenhar, pintar e escrever. Como foi que deixei tudo isso se perder? Medo, timidez... E, neste ano em que completo quarenta de idade, não consigo mais parar de pensar em cores, formas e melodias. Igual ocorria nos meus tempos de infância. Há mágica em tudo a minha volta outra vez. O mundo se tornou belo e encantado de novo. A criança que eu sou renasceu. E, junto com ela, a arte ressurgiu em fluxo tão poderoso e intenso... Um vulcão!

E uma corrente de sentimentos adormecidos brota novamente do meu espírito. Eu os coloco nos desenhos que vão para o papel. Estou começando a sentir bem lá no fundo as frases e notas musicais que fico cantarolando por aí. Minha alma vibra em sintonia com as cordas do violão. Eu tenho cores, muitas cores. Eu estava congelado, mas o gelo se derreteu. Estou livre! 

Há tantos anos eu não chorava... Nem de tristeza, nem de alegria. Eu implodia todas as minhas emoções internamente, sem que ninguém percebesse. Demorou, mas agora eu me emociono e choro, sim! Para muitos, imagino que isso seja tão simples, meio bobo até. Para mim, é uma explosão de energia. O despertar do espírito imortal que estava em estado letárgico. Estou vivo!

O caminho de retomada é longo. Nem tudo eu mostro para as pessoas, muita coisa ainda fica apenas comigo. Estou me soltando aos poucos. A própria arte me ajuda a ficar mais livre. Por isso, estou investindo bastante tempo em arte. Estou investindo tempo no coração. Nesta encarnação já estou mais amadurecido, é verdade. Mas nunca é tarde. Descobri que sou um espírito eternamente juvenil, não importa quanto tempo passe. Uma criança que canta, rabisca, brinca, ri e chora. Alguém que ama. Que está removendo suas camadas exteriores de gelo.

Eu não sou frio.

Sou quente!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Meia volta, volver


Ele estava muito bem naquela segunda-feira. Muito bem. Coisas interessantes aconteceram durante o fim de semana. E as excelentes interações e notícias prosseguiam, intermináveis, pelas redes sociais. Ele foi trabalhar cheio de gás. Estava bombando. Explodindo! Porém, quando chegou ao escritório, o diretor deu-lhe um feedback negativo sobre a reunião da semana passada. Assim, logo de cara, primeira coisa do dia. Na verdade, foi o vice-presidente, ou simplesmente VP, que havia reclamado da reunião e falado horrores. E isso era curioso, pois, a seu singelo ver, a reunião havia sido ótima. Some-se a isso o fato de que o próprio VP teve grande responsabilidade pela condução das discussões. Contudo, (ab)usou do seu poder para isentar-se e dar o feedback ao diretor, o qual não ousou argumentar. O VP foi frio, seco, intimidador. Por sua vez, o diretor repassou o feedback a ele, que acabara de chegar. Talvez por necessidade psicológica de se livrar rapidamente daquele peso, repassá-lo ao primeiro que aparecesse. O diretor, que também teve enorme parcela de responsabilidade pela reunião, tentou ser frio, seco, intimidador. Ele, por sua vez, que ainda estava cheio de brilho no olhar, argumentou com o diretor e colocou os pingos nos i’s. Estava, definitivamente, cansado de engolir quieto aquele tipo de ataque, para depois se deixar implodir aos poucos pelas próprias emoções, de dentro para fora. Ficou satisfeito ao manter-se firme, orgulhoso de si. Mas, apesar disso, a empolgação foi embora. A frequência vibratória, que estava tão elevada, reduziu-se àquela temperatura morna de toda segunda-feira padrão. Não havia mais alegria naquele dia. Pelo contrário, agora ele teria que se reenergizar para o restante da semana. Essa estrutura hierárquica militarizada de comando e controle – na qual prevalece o que é forte e não o que é justo – é o que faz o mundo corporativo, por muitas vezes, ser tão odiado. Mas tudo bem. O dia passou e chegou ao fim. Era hora de ir embora. Ele pegou o elevador, desceu. Bateu continência para a recepcionista ao deixar o prédio. Desengavetou, de seu arquivo mental, um projeto secreto que havia sido, temporariamente, colocado de lado. Codinome: deserção.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Salmos 23:4

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Influenciando líderes no fim de semana


A revisão de performance aconteceu na sexta-feira. Ele recebeu um feedback. Ou, como se diz de forma mais moderna, seu chefe lhe apontou uma oportunidade de desenvolvimento. Disse que ele precisava melhorar a capacidade de influência. Liderar os altos executivos, apesar de estar abaixo na hierarquia, por meio da persuasão. Fechando a revisão e já mudando de assunto, o chefe lhe disse, adicionalmente, que seria necessário trabalhar durante o fim de semana. Tinham que concluir aquele projeto. Para isso, era imprescindível que o diretor executivo da outra área também finalizasse a sua parte. Seu chefe lhe deu a ordem: - faça o que for necessário. Ele enviou, então, uma mensagem ao tal diretor, na própria sexta, perguntando sobre o status. No sábado, nada de resposta. No domingo de manhã, também nada. À tarde, ele resolveu telefonar: - desculpe-me por incomodá-lo no domingo, mas o senhor recebeu minha mensagem? O diretor respondeu, aborrecido: - que mensagem? Ele explicou ao diretor do que se tratava. Acrescentando, dissertou sobre a visão estratégica do projeto. Quantificou a importância que aqueles resultados teriam para a empresa. Relembrou os prazos, os quais haviam sido estabelecidos há semanas atrás, de comum acordo. Enfatizou atenções e expectativas da vice-presidência - e do próprio presidente - em torno daquele trabalho, um dos pilares do plano de crescimento. Argumentou o diretor: - eu lerei as minhas mensagens amanhã. Preocupado, ele insistiu: - é de vital importância que o senhor responda ainda hoje, pois, de outra forma, não concluiremos o projeto em tempo. Mais aborrecido que antes, e agora com franqueza, o diretor executivo disse taxativamente: - nunca mais me ligue no fim de semana. O diretor desligou. E ele se sentiu incomodado. No fundo, aquela ligação havia sido feita contra seus princípios. Ele também não ficaria feliz se recebesse uma chamada de trabalho no domingo. Seguiria tentando melhorar seu poder de influência. Mas apenas nos dias úteis.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Aquele executivo que parece forte


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Trabalho, arte e humor na busca de mim mesmo

Inicialmente, quando criei O Diário da Gravata, não me apresentei como autor da página. Lancei o blog apenas anonimamente. Na minha busca por identidade, paradoxalmente, acabei suprimindo minha identificação. Senti-me acuado. Eu tinha (e ainda tenho) diversos medos.

Medo do que as pessoas iriam pensar daquela iniciativa.

Medo de retaliações no meu emprego, por se tratar de uma crítica ao mundo corporativo, ao qual pertenço. Talvez minha imagem de bom funcionário se quebrasse.

Medo de como minha família iria reagir ao me ver exposto daquela maneira, com possíveis riscos a minha carreira. Talvez minha imagem de pai responsável se quebrasse.

Medo de que meus amigos vissem que eu estava "fracassando", entre aspas mesmo, no sentido de não suportar as pressões que o mercado impõe. Talvez minha imagem de "vencedor" se quebrasse.

Medo de parecer infantil com meus desenhos, os quais me remetem aos tempos de criança, período no qual surgiu o interesse em desenhar. Talvez minha imagem de homem maduro se quebrasse.

Medo de confessar minhas fragilidades, pois lancei a página em um momento de profunda depressão, com o objetivo de colocar para fora, através de desenhos e textos, as situações que me causavam dor psicológica no trabalho. Talvez minha imagem de pessoa forte se quebrasse.

Porém, como vencer o medo de ser eu mesmo sem me associar publica e explicitamente as minhas criações? Por quanto tempo mais seria possível manter a suposta boa imagem se, dentro de mim, eu estava em total ebulição? E, afinal de contas, por que alguém tem que manter uma imagem?

Então lancei O Diário da Gravata publicamente, declarando-me como o autor, para todo mundo ver.

Eu não quero mais me preocupar com o que os outros pensam.

Eu não quero mais me preocupar com retaliações no meu emprego. Mesmo porque eu não tenho reclamações dele, meus conflitos são todos internos. A minha crítica ao mundo corporativo é genérica, não específica a nenhuma pessoa ou empresa. Faz parte de um processo inconsciente de espelhos, de projeção. Eu aprendo sobre mim ao fazer caricaturas do sistema. É possível que eu falhe ao longo do caminho, mas quero sempre fazer uma crítica leve, descontraída, que nunca ofenda nem magoe ninguém. No máximo, que provoque reflexões.

Eu não quero mais me preocupar em parecer responsável. Fazendo assim, eu estava sendo irresponsável comigo mesmo, com meus próprios sentimentos.

Não quero mais me preocupar em parecer maduro. Pelo contrário, estou estimulando minha criança interior, buscando as mesmas gargalhadas dos velhos tempos de infância. Por acaso, isso significa ser menos amadurecido?

Não quero mais me preocupar em parecer forte. E, por me aceitar vulnerável, estou me sentindo mais confiante, justamente por ter colocado minhas fragilidades em evidência de forma transparente. Não pretendo mais investir energia em manter disfarces e máscaras.

Não quero mais me preocupar em ser "vencedor". Só quero vencer a mim mesmo.

E, depois de mais de um ano, a verdade é que nenhum dos meus medos se concretizou. Embora eu estivesse esperando pelas consequências, para que me ajudassem a dilacerar meu próprio ego, nada aconteceu. Não fui retaliado no trabalho, ninguém me chamou de fracassado, irresponsável, infantil, fraco. O medo é assim. Em geral, os receios existem apenas na mente.

Desta forma, O Diário da Gravata representa muito mais que um hobby para mim. Tem sido uma das minhas ferramentas de aprendizado de coragem e autenticidade. Sou muito grato a esta página por aliviar minhas angústias quando necessário. Meu estresse caiu, meu rendimento melhorou. O trabalho me impulsiona ao autoconhecimento, enquanto a arte e o humor têm sido minha terapia.

Paralelamente, tenho me esforçado para também ser autêntico nas relações do dia-a-dia, no trabalho e na vida, ao olhar diretamente nos olhos das pessoas. Essa é a parte mais importante e a mais difícil, a mais árdua. Diferente de desenhar ou escrever, ela acontece em tempo real. Requer foco no momento presente, consciência plena da situação e de si, tudo ao mesmo tempo.

Estou aprendendo a me expressar em apresentações, reuniões e conflitos, assumindo posições, sem me omitir nem me exaltar em função das emoções. Estou aprendendo a não julgar, a tolerar as diferenças, a ignorar ofensas, a ouvir críticas e opiniões alheias sem ficar bravo, entendendo que o outro também percorre sua jornada de autoconhecimento e evolução. Estou aprendendo a dizer não quando não concordo ou quando não estou a fim de alguma coisa (finalmente!). Aprendendo a me dar um tempo, a ir no meu ritmo, a ser menos exigente comigo mesmo, convivendo em paz com minhas sombras e imperfeições. Prossigo lutando para me melhorar espiritualmente, contudo, sem me agredir, permitindo-me existir de forma aberta e verdadeira.

De passo em passo, vou ganhando plenitude.

Como já andei escrevendo por aí: quando estamos bem, tudo fica bem.

Brilhe a vossa luz.
Paz a todos.