segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Meia volta, volver


Ele estava muito bem naquela segunda-feira. Muito bem. Coisas interessantes aconteceram durante o fim de semana. E as excelentes interações e notícias prosseguiam, intermináveis, pelas redes sociais. Ele foi trabalhar cheio de gás. Estava bombando. Explodindo! Porém, quando chegou ao escritório, o diretor deu-lhe um feedback negativo sobre a reunião da semana passada. Assim, logo de cara, primeira coisa do dia. Na verdade, foi o vice-presidente, ou simplesmente VP, que havia reclamado da reunião e falado horrores. E isso era curioso, pois, a seu singelo ver, a reunião havia sido ótima. Some-se a isso o fato de que o próprio VP teve grande responsabilidade pela condução das discussões. Contudo, (ab)usou do seu poder para isentar-se e dar o feedback ao diretor, o qual não ousou argumentar. O VP foi frio, seco, intimidador. Por sua vez, o diretor repassou o feedback a ele, que acabara de chegar. Talvez por necessidade psicológica de se livrar rapidamente daquele peso, repassá-lo ao primeiro que aparecesse. O diretor, que também teve enorme parcela de responsabilidade pela reunião, tentou ser frio, seco, intimidador. Ele, por sua vez, que ainda estava cheio de brilho no olhar, argumentou com o diretor e colocou os pingos nos i’s. Estava, definitivamente, cansado de engolir quieto aquele tipo de ataque, para depois se deixar implodir aos poucos pelas próprias emoções, de dentro para fora. Ficou satisfeito ao manter-se firme, orgulhoso de si. Mas, apesar disso, a empolgação foi embora. A frequência vibratória, que estava tão elevada, reduziu-se àquela temperatura morna de toda segunda-feira padrão. Não havia mais alegria naquele dia. Pelo contrário, agora ele teria que se reenergizar para o restante da semana. Essa estrutura hierárquica militarizada de comando e controle – na qual prevalece o que é forte e não o que é justo – é o que faz o mundo corporativo, por muitas vezes, ser tão odiado. Mas tudo bem. O dia passou e chegou ao fim. Era hora de ir embora. Ele pegou o elevador, desceu. Bateu continência para a recepcionista ao deixar o prédio. Desengavetou, de seu arquivo mental, um projeto secreto que havia sido, temporariamente, colocado de lado. Codinome: deserção.

Nenhum comentário:

Postar um comentário