terça-feira, 30 de junho de 2020

Trabalhar com o que gosta



Ele estava muito estressado. Era um Powerpoint atrás do outro, infinitas apresentações para fazer. A vida corporativa o fazia miserável. Pelo menos era assim que pensava. Não aguentava mais, estava no seu limite. Definitivamente, precisava de um descanso. Não de um simples feriado, nem de férias. Precisava de um intervalo maior. Decidiu tirar um período sabático. Negociou com a empresa e saiu. Estava livre, pelo menos por enquanto.

Ficou um tempo ocioso. Refletiu sobre sua carreira profissional. Por que será que ele se sentia tão descontente? Será por que não estava trabalhando com o que gosta de fazer? É... Talvez fosse isso... Provavelmente, ele se sentiria mais motivado caso fizesse outra coisa da vida. Como gostava de desenhar quadrinhos, decidiu utilizar o período sabático para desenhar. Melhor que isso, definiu uma rotina intensa de trabalho para publicar seus quadrinhos periodicamente na internet. Imaginou que, ao se dedicar de maneira estruturada, no futuro, poderia abandonar o seu emprego convencional para então empreender seu verdadeiro propósito, sua paixão que o acompanhava desde a infância: os benditos quadrinhos.

Passou a acordar cedo todos os dias. Organizou uma agenda de criação. Cadastrou perfis em praticamente todas as redes sociais para divulgar seu trabalho. Em Português e, por que não, também em Inglês - vai que os gringos sejam mais propensos a dar 'like'... Estudou o mercado, entendeu direitinho como funcionavam os algoritmos de 'social media'. Desenvolveu uma estratégia de marketing completa. E desenhou. Todos os dias sem falta. Primeiro o rascunho, depois o cenário, depois os personagens, depois as cores, depois as sombras, depois os balões com os diálogos. Era tudo muito legal!

E assim as coisas foram tomando corpo. Criação, rascunho, cenário, personagens, cores, sombras, balões, diálogos, publicar. E, de novo: criação, rascunho, cenário, personagens, cores, sombras, balões, diálogos, publicar. Todos os dias. Às vezes, um pouco mais de foco na divulgação. Às vezes, pensava em criar um produto relacionado aos personagens para vender online, mas não sabia muito bem ainda... Voltava a desenhar.

Criação, rascunho, cenário, personagens, cores, sombras, balões, diálogos, publicar. Consistência, vamos lá! Criação, rascunho, cenário, personagens, cores, sombras, balões, diálogos, publicar. Não era incomum sentir dor nos dedos de vez em quando, não estava acostumado. Enfim... Mais um dia: criação, rascunho, cenário, personagens, cores, sombras, balões, diálogos, publicar. Um ciclo infinito...

Passados alguns meses, sentindo-se cansado, em um dia sem ideias e com as mãos doendo, olhou para a tela do computador. Ficou observando por um instante. Seu olhar estava grudado em um ícone específico. O ícone olhava de volta para ele. E dizia, sussurrando em inglês: - "double-click me". Era o Powerpoint. Ele clicou. E fez um ppt para relaxar...

2 comentários:

  1. Muito bom! É bem assim mesmo, o jeito mais fácil de deixar de gostar das coisas é fazer delas o trabalho. É como dizia o seu Madruga: "Trabalhar não é ruim, o ruim é ter que trabalhar". Eu também tenho meus outros "projetos" que fico tocando nas horas vagas, é uma relação de amor e ódio: eu gosto das coisas que faço, mas às vezes preciso ficar um tempo sem mexer nelas.... Parabéns pelo trabalho!

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    1. Gostei da filosofia do Seu Madruga, é bem isso. E concordo muito com você quando menciona a relação de amor e ódio. Acredito que viver é buscar sempre um equilíbrio entre frio e quente, luz e sombra, compromisso e diversão. E assim vamos crescendo. Obrigado pelo comentário.

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